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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Dos Coronéis ao Cangaço: Uma Viagem no tempo da Cidade de Santa Maria do Cambucá

Mais de um Século de História
Uma visita na história de Santa Maria do Cambucá

Kaline Aragão | Fabiano Sena
Edição nº 1
13 de Março de 2014

       Quando começamos a historiar os fatos ocorridos em nossa cidade, nos deparamos com uma riqueza histórica, que merece ser resgatada. Fazer um mergulho no passado,nos leva a compreender o pensamento de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, quando ele diz: “tem horas antigas que ficaram muito mais perto do que outras em recente data”.Assim, vamos seguir viagem, reconstruir lembranças, consultar fontes e tentar mostrar um pouco da construção da cidade de Santa Maria do Cambucá,descrevendo de maneira sucinta, mais de um século de história.

      Um município com pouco mais de 13 mil habitantes, localizado no agreste setentrional a 150 km da capital pernambucana. Fundada em 1876 pelo Frei Ibiapina. Sua povoação iniciou-se ao redor da capela de Nossa Senhora do Rosário. Primitivamente teve a denominação Carrapato e pertencia ao território do município de Taquaritinga do Norte. Seus primeiros habitantes foram: José Ferreira de Azevedo, Cornélio Clarêncio de Queiroz, Alvino Correia de Queiroz, Pedro José de Alcântara, Tenente Coronel José Braz Pereira de Lucena, Capitão Elias de Queiroz, Coronel Vicente Correia de Queiroz, Capitão Manoel Melquiades de Almeida e o Alferes Melquiades Ferreira de Almeida.

     Passou à categoria de Vila em 25 de julho de 1895 e chamava-se Santa Maria. Alguns anos depois, por sugestão do Instituto Arqueológico Histórico Geográfico de Pernambuco, adotou o nome de Ibiapina em 1º de janeiro de 1938, para diferenciar-seda cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul.Em 1944,descobriu-se que já existia uma cidade no Ceará com o nome de Ibiapina e devido ao ocorrido passou a ser denominada Cambucá.  E só então, em 1º de janeiro de 1964 foi sancionada a lei nº 4.955, pelo até então Governador Miguel Arraes de Alencar, emancipando o município em 20 de dezembro de 1963, passando doravante a ser denominada de Santa Maria do Cambucá.

        O nome Cambucá se deve a uma espécie de árvore que existia no município. Atualmente a cidade é conhecida também como terra do caju, calcário e cidadãos ilustres, trás no berço um povo guerreiro e hospitaleiro.

Antônio Silvino e seu bando
     Um fato histórico, que ocorreu em Santa Mariado Cambucá, nos faz mergulhar em uma época, em que homens faziam do Cangaço, uma forma de justiça baseada na força bruta. Conta à história que o Coronel José Braz,homem mais influente do lugar, político, proprietário de terras e criador de gado, que depois de ter dado guarida a policiais que estavam à procura do cangaceiro Antônio Silvino e seu bando e coagido por políticos da época,rebelou-se com o até então seu amigo que era o chefe da malta. E enviando-lhe mensagem, disse que, “se ele tivesse a audácia de vir a Santa Maria não seria recebido com banda de música e fogos, como foi numa cidade do Rio Grande do Norte, mas seria sim, recebido à bala porque era o que merecia diante de sua prepotência e de todo mau que fizera no Nordeste”. Antônio Silvino, prontamente enviou um portador para certificar-se de tamanho desaforo. Confirmado os fatos, prometeu que a qualquer hora visitaria o povoado. Após meses de angústia e temor de todos os moradores e comerciantes, quando se retomava a confiança e acreditava-se que o cangaceiro desistirá de invadir o povoado,em uma segunda-feira do dia 12 de junho de 1912, o cangaceiro Antônio Silvino conhecido como “Rifle de ouro” e o seu bando, invadiram Santa Maria em plena luz do dia durante a feira.Depois de uma grande troca de tiros que culminou na rendição do coronel, o cangaceiro toma a decisão de não matá-lo por conta da ousadia de sua filha Santa, que intercedendo pela vida do seu pai,se propôs morrer em lugar do mesmo. Impressionado com tanta coragem, Antônio Silvino pede R$2,00 contos de réis para ir embora. Logo em seguida, saqueou quase todo comércio, distribuiu a mercadoria ao povo e ateou fogo nas casas comerciais, partindo então, de Santa Maria.

Antônio Silvino e seu Bando

     Depois da invasão histórica e reconstrução da vila, chegamos a outro ano que merece destaque. Segundo a história, no ano de 1964, assume como 1º primeiro prefeito eleito constitucionalmente, um grande líder político,que tinha por nome - Péricles Bezerra Almeida.Durante o exercício de três mandatos,praticamente construiu a cidade.O prédio da prefeitura foi inaugurado com o seu nome. Após Péricles, sucederam-se grandes nomes na política, entre eles: Zacarias Falcão Filho, José Severino de Azevedo, Mário Alves de Lima, Antônio David de Souza, Elizeu João de Souza e atualmente Alex Robevan de Lima.


     Ainda podemos citar o relato do ex-prefeito da cidade, o senhor José Severino Azevedo, conhecido também como Sr. Zé Rebolo,que no exercício do seu mandato, que se deu entre os anos de 1977 a 1982 descreve com muito saudosismo o seu tempo na política e na vida social, comentando sobre as mudanças de lá pra cá. “Ser prefeito naquela época era complicado, as dificuldades existiam, e não eram poucas,o acesso a hospitais e médico será muito difícil, as pessoas da minha geração nasceram através das mãos de Madrinha Sinhá, parteira da época. Até para estudar era difícil, só havia um grupo escolar do estado. Tudo que era construído tinha que ser com recursos próprios. Durante o passar dos anos a cidade cresceu muito, está bonita, diferente do meu tempo.Infelizmente não tenho fotos - só a lembrança - sinto saudades dos amigos que se foram, sinto saudades de Peri (Péricles Bezerra de Almeida, 1º Prefeito da cidade). “Aprendi que amigo é como diz Nelson Gonçalves, palavra fácil de pronunciar, porém, difícil de encontrar.” Amo e adoro minha terra, nasci aqui e aqui vou ficar. Não tem Paris, não têm Estados Unidos e não têm nada que vai me tirar de Santa Maria do Cambucá, conheço todo mundo, entro na casa de todo mundo, daqui só saio quando Deus me chamar”.


     No ano de 1992, o ilustre cidadão, Desembargador Dr. João David de Souza Filho, que nessa época era Presidente do Tribunal de Justiça, transformou o município em sede de Comarca, em seu discurso chegou a afirmar que aquele era o dia de maior significação em sua vida de magistrado, porque cumpria o compromisso de levar a justiça a sua cidade natal. Dr. João mesmo afastando-se da cidade por conta da profissão, nunca se desligou totalmente, e faz questão de enfatizar seu amor pela terra. Guarda na memória as lembranças das noites de maio, “Lembro muito bem das noites de maio, era uma festa aqui na frente de casa. Minha mãe gostava muito, o povo estava empolgado com a criação da nova paróquia. O vigário fez uma bela matriz, justiça se faça, mas não é a original”.

      Para o futuro de Santa Maria, Dr. João não tem muitas expectativas, “A administração tem se sucedido e a gente não vê resultados práticos, não sei como vai ser daqui para frente”.

     Na área da música conta-se que um senhor, conhecido como Maestro Lalau saiu do Rio de Janeiro para morar em Vertentes. Com sua formação musical o maestro formou uma banda, assim que chegou ao local. Para anunciar sobre os ensaios da mesma, tocava-se o bumbo em cima da serra e os interessados iam andando até lá. A partir daí, eles tiveram grandes frutos, como Manoel de Lima (pai de Dr. Mário Lima), Seu Amaro da Juliana, as filhas de Seu Manoel Canarinho - entre elas, Dona Lucila, e tantos outros que se sucederam.

    O professor de história Jorge Silva afirma ainda que, “é necessário trabalhar com a juventude e desenvolver o aspecto social da cidade, com teatro, esporte e música de qualidade”. O professor também lembra que em sua época de garoto, a juventude era mais participativa e envolviam-se mais em projetos, como oda Banda Fanfarra da Escola Agripino de Almeida, que foi fruto de uma época em que ser músico fazia a diferença. Essa prática mantinha a mente dos jovens daquela geração ocupada e despertava novas perspectivas, os alunos percebiam que eram capazes de muito mais. O professor Jorge ainda afirma, “precisamos desenvolver mais políticas públicas voltadas para os jovens, além de não existir uma consciência cultural e um amadurecimento político, entre a juventude”.

    Corroborando com a fala de Jorge Silva, o Maestro Flávio César nos relata que a sociedade tem fechado as portas para cultura, esquecendo-se de suas raízes e deixando de lado a sua história. Segundo ele, que discorrendo sobre a nossa vivência contemporânea, mostra-se preocupado com a desvalorização de algumas tradições antigas, atentando ao fato de não estarmos repassando a cultura para a população mais jovem, ocasionando na perca dos valores com o passar do tempo. Um exemplo disso é a perda gradativa das bandas de pífanos que estão se desfazendo, juntamente com as cirandas, e outras expressões locais.O professor Flávio diz que atualmente só existe uma banda de Pífano, no Povoado Caramuru, e lembra-se da existência de outra Banda de Pífano no Sítio Juliana,que se estivesse ativa, neste ano de 2014 completaria 100 anos. Para o professor Flávio César, o mais importante é a valorização. “Hoje tem alguns jovens cantando e fazendo as coisas deles, mas são coisas atuais, as coisas que passaram, as coisas que tem raiz, e que tem fundamento, hoje não existem mais. Devemos sempre fazer as festas dando espaço para as pessoas da terra, faça isso ou faça aquilo, com determinado tempo à própria comunidade vai abraçar”.

    Outro fato marcante em nossa cidade é a realização da feira livre que acontece nas segundas feiras a mais de um século. Um dos primeiros comerciantes que negociava na cidade foi o Sr.José Patrício. Outro nome citado é o de José de Guimarães, conhecido como Sr. Piu, surubinense que comercializava tecido em toda região.

     E foi assim, que na construção de cada história, de cada pessoa e lugar, que descobrimos um diálogo constante entre o passado e o presente, diálogo muitas vezes silencioso, difícil de ser entendido, porém de uma importância significativa para o conhecimento e reconhecimento de nossa história, que povoada de gestos, símbolos, desejos e recordações nos arremete a um futuro de muita esperança.

BANDEIRA DE SANTA MARIA DO CAMBUCÁ

Hino de Santa Maria do Cambucá
Letra: Antônio José da Silva Música: Flávio César T. Diunisio e Antônio José da Silva



Vejo lindo sol raiar
Por trás desta serra encantada

Com lindos frutos do cambucá
Esse é o símbolo da terra querida


(Refrão)

Ó terra querida
Meu berço natal
Por ti darei a vida
Tu és sem igual



No nordeste em Pernambuco
No agreste setentrional
Santa Maria do Cambucá
És para mim cidade imortal



Dando toque de alvorada
Pardais cantam com muita alegria
Tu tens calor de um sol brilhante
Com a magia de um novo dia



Tens o nome da mãe de cristo
Só contigo sempre sigo avante
A tua área é tão pequena
Mas o teu povo é tão forte e gigante.


SANTA MARIA DO CAMBUCÁ - 2013








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